As 3 maiores questões táticas da temporada 2019

Um técnico que se preze deve saber responder perguntas. “Isso vai dar certo? ” “Como eu vou encaixar?” “O que é melhor pra se fazer?”.

Quando falamos de técnicos mais jovens como Matt LaFleur, Kliff Klingsbury e John Haurbaugh, eles estarão com sua habilidade de responder perguntas posta a prova durante a temporada 2019.

Esses técnicos tem grandes problemas em formas de questões que eles terão que responder durante a temporada.

 

Esquema vs QB: Matt LaFleur e seu dilema com Aaron Rodgers

Mike McCarthy foi merecidamente demitido do cargo de HC dos Packers, eu diria. Para seu lugar, o Packers contratou o OC do Titans e pupilo do HC do 49ers Kyle Shanahan, Matt LaFleur.

LaFleur vem para de cara tentar mudar a mentalidade voltada quase que totalmente ao passe em shotgun de McCarthy, sem quase nenhum run action, nenhum motion ou variação nas formações e jogadas. Já o tipo de ataque popularizado nessa década por Kyle Shanahan tem um enfoque nas corridas de Outside Zone e nos passes de playaction.

Uma das características desse tipo de ataque é que ele pede do QB coisas bem diferentes do que o ataque de McCarthy pedia. A corrida estressa a defesa, e desse estresse surgem as janelas pra passe no playaction. O papel do QB é principalmente aproveitar essas janelas criadas pelo esquema com passes precisos. Em outras palavras, não tem muito espaço pra outras leituras e improvisação. É lançar e pronto, pois se tudo der certo o espaço já está lá graças ao esquema.

Essa jogada é um exemplo bem claro disso. Ryan pede o snap e faz o run action. Quando se vira para fazer o passe ele não hesita: O espaço já está lá pro recebedor fazer a recepção. Ele não pode hesitar como por exemplo Jared Goff que joga nesse mesmo tipo de esquema fez no Super Bowl.

 

O problema é que esse tipo de jogo em tese não se encaixa bem com o estilo do Aaron Rodgers de jogar. Rodgers, como sabemos, é o rei da improvisação e dos passes fora do pocket.Também gosta de controle antes do snap pra mudar jogadas e fazer snap count.

Não tem nada de errado com isso, é claro. Mas o que ficou claro nos últimos anos é: Rodgers precisa de ajuda. E precisa se ajudar também. Ele não vai resolver sozinho e ele precisa algumas vezes fazer o que o esquema pede.

No entanto, também não seria uma boa idéia impedir que Rodgers faça suas leituras antes do snap pra mudar a jogada, nem impedir que ele improvise em algumas situações.

Para efeito de comparação, uma situação parecida com essa já aconteceu no Atlanta Falcons de 2015. Pouca gente se lembra, mas a primeira temporada de Kyle Shanahan no Falcons foi medíocre no máximo. Shanahan instalou seu esquema mas Matt Ryan não se entendeu bem com ele e teve uma temporada abaixo da média. Na temporada seguinte, Shanahan adaptou e mesclou seu esquema para o tipo de QB que Ryan gosta de ser: No pocket, fazendo leituras, e mesclou isso com seu ataque fatal. O resultado quase deu certo no final, como todos sabemos. LaFleur vai se beneficiar ao máximo se souber fazer o que Shanahan fez em 2016.

LaFleur apresentou algumas idéias no Titans de 2018 que podem fazer com que a adaptação seja melhor. Nessa jogada ele faz o famoso playaction com boot do QB, normalmente executado com o QB under center, partido do Shotgun.

 

 

 O Air Raid ataca de novo: Kliff, Kyle e mais um experimento College-NFL

O Arizona Cardinals tomou uma decisão nada conservadora na escolha do seu novo técnico.Klingsbury foi contratado de Texas Tech quase que exclusivamente pela sua expertise ofensiva relacionada ao Air Raid.

Air Raid está mais para uma filosofia de jogo do que para um esquema específico de ataque. É muito popular no college e nos últimos anos está flertando cada vez mais com a NFL. Vários times usam conceitos do Air Raid, apesar de não terem ataques totalmente Air Raid.Mas isso pode mudar com o Cardinals.

A última vez que vimos um experimento tão agressivo entre o jogo de College com o de NFL foi quando o Eagles contratou Chip Kelly como Head Coach em 2013. Conhecido por seu ataque muito, mas muito “up tempo” (no hudle e acelerado pra fazer o próximo snap), Chip Kelly obteu sucesso no primeiros anos na liga, muito pela falta de treino das defesas em defenderem esse tipo de ataque. Mas com o tempo as defesas aprenderam a defender o ataque e surgiram problemas relacionados ao “up tempo”, como estresse excessivo da OL. Chip Kelly acabou demitido e o “up tempo” total não pegou.Mas para sorte do Cardinals, o Air Raid não é uma novidade na NFL e já provou que veio pra ficar.

Mas quando um time decide trocar um QB de estilo mais “tradicional” como o Josh Rosen por Kyler Murray, um típico QB “Spread” de college com “absurdos” 1,78m, você sabe que eles vão para o tudo ou nada com a filosofia.

Kyler Murray sendo a primeira escolha do draft seria impensável há uns 10 anos atrás, principalmente por ser baixo e por ter vindo de um “esquema de college”. Bom, o esquema “de college” agora predomina na NFL e QBs baixos estão se destacando cada vez mais na liga.

Apesar do ataque Air Raid ser construído pelo passe, claro, um QB dual-threat também serve perfeitamente ao esquema com Read Options, RPOs, Boots e passes em movimento ou corridas feitas para o QB, que na verdade servem vem com qualquer esquema “Spread”. A verdade é que não foi a toa que Kliff preferiu Kyle Murray a Josh Rosen. O estilo de jogar de Kyle expande os horizontes do esquema.

Aqui vemos Kyle usar o Read Option, que não encaixou muito bem nessa jogada, para ganhar jardas terrestres. A habilidade de Kyle de improvisar pode levar o ataque a outro patamar.

 

O grande obstáculo para o Cardinals ainda parece ser a qualidade do roster, principalmente da linha ofensiva. Mas a esperança é que isso seja resolvido antes do final do experimento.

 

Sustentando o “insustentável”: Lamar e seu desenvolvimento como passador

No momento em que os Ravens fizeram de Lamar Jackson seu QB titular na última temporada, os coordenadores defensivos adversários devem ter soltado algum palavrão. O problema pra eles foi que o problema tinha mudado de uma hora pra outra. A ameaça de Lamar como corredor era totalmente diferente da de um QB “normal” como Joe Flacco.

Mas Lamar não tinha o jogo de passe muito desenvolvido ainda. Sempre teve potencial como passador, e por isso foi draftado na primeira rodada, mas suas mecânicas precisavam melhorar. E quanto aos coordenadores defensivos, Gus Bradley do Chargers descobriu o antídoto para parar as corridas de Lamar nos playoffs.

Lamar mostrou que tinha um passe inacurado e inconsistente na temporada passada. A boa notícia é que são problemas completamente corrigíveis.

 

Daí vem a principal questão levantada por essa história toda: O ataque do Ravens é sustentável? Quer dizer, você realmente pode mandar seu QB correr tanto assim, sem ele se machucar, e ainda assim ter um jogo de passe consistente?

Alguns dirão que não, que esse papo de mandar o QB correr desse jeito vai resultar em contusão mais cedo ou mais tarde e por isso que QB tem que passar e pronto. Eu acho esse argumento de certa forma válido. Por exemplo Robert Griffin III, que coincidentemente é o reserva de Lamar hoje, teve o início de carreira promissor, mas nunca mais foi o mesmo depois de uma corrida infeliz. Um QB definitivamente precisa de cuidado redobrado ao correr, protegendo a bola e fazendo slide, e ter esse cuidado requer uma disciplina muito grande.

Mas passado esse obstáculo, vem um dilema grande: O QB vai saber a hora CERTA de correr e a hora CERTA de passar? Quer dizer, dá pra maximizar o jogo de passe e maximizar o jogo corrido ao mesmo tempo? Quando se fala de QB scramblers, muitas vezes se critica a escolha do QB de correr, mesmo que ganhe jardas, pois tinha oportunidades melhores de recebedores livres na mesma jogada.

Essa é outra questão de treino e disciplina. Se conseguirem maximizar o ataque aéreo , o ataque se torna mortal e imparável. Mas o problema é que na história, a questão se dá pra maximizar o jogo corrido e o jogo aéreo de um QB ao mesmo tempo nunca foi positivamente respondida.

O Ravens, Lamar, John Haurbaugh, Greg Roman, tem a chance de fazer história. Ou ser vítima dela.