Josh Allen mostra o valor de se apostar no talento

A temporada de draft (Março até Abril) é um dos períodos mais polêmicos do ano. É o período onde todo mundo tenta prever o futuro. Todos dão seus palpites sobre quem vai vingar e quem vai virar bust.

Um dos conflitos mais comuns quanto a se avaliar um prospecto é a questão do talento bruto vs inexperiência/técnica crua. Times que tem medo de draftar busts acabam valorizando mais prospectos que tem um ‘chão’ alto, mesmo que tenha um ‘teto’ baixo.

Isso dá uma boa discussão, mas o fato é que o produto últimos drafts tem mostrado que a aposta no teto maior paga muito bem a longo prazo. Prova disso é o que aconteceu com Patrick Mahomes, com Lamar Jackson e agora com Josh Allen.

Mahomes era desacreditado por alguns por vir de um ataque totalmente Air Raid e ter técnica crua. O Bears preferiu Trubisky, um QB mais “normalzinho”. Mesmo com um chão teoricamente menor, a evolução técnica de Mahomes foi muito maior e mais rápida que a de Trubisky (que na verdade mal teve evolução). Lamar Jackson então, coitado. Queriam que ele fosse WR. O MVP teve que esperar até a última escolha da primeira rodada pra uma equipe que já tinha escolhido um TE na primeira rodada (e que não está mais no time hoje), desse um trade up pra draftá-lo.

Josh Allen no seu pré-draft era exaltado por uns e desdenhado por outros. Seu números não eram bons, nem sua técnica. A única coisa que tinha a seu favor era o atleticismo afiado e o poderoso braço. Alguém até criou um site pra satirizar o hype que ele tinha na época. DraftJoshAllen.com foi criado pelo blog Barstool Sports para advogar pelo prospecto de forma irônica.

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Mesmo assim, o Bills apostou em Josh Allen, que foi nomeado starter logo na primeira temporada. De lá pra cá, ele ainda teve que aguentar todas as zoações sobre os patos mortos que lançava e as interceptações que sofria. Mas de alguma forma ele conseguia compensar isso com seu talento.

A verdade é que é muito fácil apontar os erros de alguém novo sem olhar o copo meio cheio. Qualquer um pode ver e falar que um passe foi muito pra esquerda, que sua leitura da defesa na interceptação foi errada. Aí essa pessoa vem e fala “tá vendo? tá na cara. não sabe jogar. overrated”. A única coisa quem um QB talentoso precisa pra provar que essas constatações estão erradas é tempo e trabalho.

Foi o que Josh Allen fez, mudando sua mecânica de lançamento. Nesse vídeo, Brett Kollman explica que a mêcanica de passe que Allen tinha o atrapalhava a ter uma passe com mais accuracy. Quando um QB faz o passe, seu pé dianteiro precisa estar apontado para o recebedor pro quadril rotacionar por inteiro, dando o torque ao lançamento. Allen não conseguia fazer isso e seu pé traseiro ficava atrás, sem ir pra frente no fim da rotação. Isso causava problemas de accuracy pois a maior parte da força do lançamento vinha apenas do braço.

 

Allen corrigiu o problema com com um novo hábito: Agora dá um pequeno pulo com o pé dianteiro para que ele esteja mais apontado para o recebedor, fazendo assim sua perna traseira rotacionar junto.

Com esse pequeno upgrade nos stats, Allen vem deslanchando em 2020.

 

Potencial Assustador

Você quer saber o quão bom Josh Allen pode ser? Pense em alguma coisa ao redor do que Patrick Mahomes está fazendo na carreira.

Os dois tem um estilo bem parecido nos final das contas. Ambos tem braços extraordinariamente fortes, e isso aliado a uma ótima mobilidade atlética, faz com que eles possam manipular os defensores em zonas de cobertura.

Nessa jogada, Allen se livra de um sack certo de um defensor que nem bloqueado foi e se movimenta pra esquerda. Isso atrai a marcação naquele lado, fazendo com que o meio do campo fique livre para a rota do recebedor do lado oposto. Allen faz um passe contra o movimento do corpo, a lá Mahomes.

 

Allen usa essa mesma habilidade para criar janelas entre as zonas de cobertura da defesa pra converter uma 3rd and 22 crucial para a vitória do Bills. A defesa está em uma Cover 6, ou Quarter-Quarter-Half.  Allen se movimenta para direita da mesma forma que na jogada anterior e os dois defensores do meio seguem seu movimento, abrindo a janela de passe para Allen.

 

Quando você para pra pensar, as vezes é difícil ter uma noção completa do quanto essa habilidade que Mahomes e Allen possuem é extraordinária. Allen fez a mesma coisa no mesmo jogo, transformando um mais um sack certo em uma primeira descida. A blitz do Rams confunde o esquema de proteção da OL, e Allen tem um defensor imediato em sua frente. Ele consegue escapar pra esquerda e faz mais um passe transversal, transformando uma grande perda de jardas numa primeira descida.

 

Allen também consegue ser extraordinário de dentro do pocket. Em uma 3rd and 17 e precisando virar o jogo, ele completa um passe perfeito para Stefon Diggs contra uma Cover 4. A defesa está bastante recuada antes do snap, e o Middle Hook defender está bastante atento a rota de Diggs. Ele carrega a rota de Diggs o máximo que pode. Diggs então se coloca no “entrelinha” entre os dois níveis da defesa. Allen faz um passe preciso e Diggs conta com um leve escorregão do Safety pra assegurar a recepção.

 

Além de manipular a defesa com a mobilidade, Allen também se mostra capaz de fazer isso com os olhos. Nessa jogada ele encara mais uma vez uma Cover 4 com a defesa bastante recuada. Ele tem o conceito Levels no lado esquerdo e uma combinação Post-Wheel com uma rota Flat no lado direito. A combinação Post-Wheel geralmente é interessante contra uma Cover 3, mas adicionar uma rota Flat do RB a faz funcionar contra uma Cover 4. A rota Post ocupa o CB, enquanto a rota Flat faz o Curl-Flat defender hesitar.
A hesitação, no caso dessa jogada, é também causada pela manipulação desse defensor por Josh Allen. Ele olha para o RB e até mesmo finge tirar a bola pra fazer o passe, o que congela o Safety #22, assim a rota Wheel do WR Cole Beasley fica livre para um passe certeiro na lateral.

Josh Allen manipulou o Curl-Flat defender para fazer o passe para a rota Wheel de Cole Beasley,

 

Aconteceu com Patrick Mahomes, aconteceu com Lamar Jackson e agora acontece com Josh Allen. O talento bruto é um investimento de longo prazo. Pra cada Johnny Manziel tem  também um Deshaun Watson. Não dá pra viver com medo de draftar bust. A vida é muito curta pra isso.