Ascensão e queda do ‘Let Russ Cook’

‘Let Russ Cook’ foi uma espécie de movimento criado por torcedores do Seahawks e endorsado por gente que trabalha com Analytics da NFL. O movimento defendia que Russel Wilson precisava de mais jogadas de passe para levar o ataque pra frente. A lógica era que, como correr vinha sendo ineficaz, o melhor a se fazer era passar a bola e concentrar a produção do ataque nas mão de Wilson. Pete Carroll, influenciado por isso ou não, decidiu fazer o que o movimento pedia.  acreditou que seu ataque estava pronto pra isso e que Wilson poderia fazer esse papel.

Acabou que nas primeira semanas, tudo deu certo. Russel Wilson comandava o ataque como um chef de restaurante francês, distribuía a bola para todos os lados e conseguia passes longos espetaculares. O pessoal do Analytics cantava vitória e anunciava a revolução iminente. Do meio da temporada pra frente, o ataque caiu de produção. Wilson não conseguia mais ser regular e Carroll mudou de idéia e começou a balancear mais o ataque entre corrida e passe. Acabou não adiantando e o Seahawks foi eliminado nos playoffs com uma má apresentação do ataque.

A ponto de Carroll chegar a uma conclusão completamente antagônica ao fim da temporada:

“We have to run the ball better. Not even run the ball better, run it more,”

Torcedores não gostaram. O pessoal do Analytics não gostou. E eu confesso: eu também não gostei dessa declaração.

Pra começar a explicar porque não gostei, e porque o Let Russ Cook não vingou, vamos ver qual é a lógica de Carrol. Segundo ele, correr com a bola causaria um efeito nas defesas adversárias:

“Frankly, I’d like to not play against two-deep looks all season long”

Carroll aqui dá uma dica sobre o que deu errado na temporada.

O motivo de não ter dado certo de um modo geral é simples: O ataque do Seahawks é nada mais que mediano. Eu poderia ficar aqui falando de setor a setor, de esquema a esquema, sobre porque é um ataque limitado e que não poderia sustentar uma produção daquela por muito tempo. Mas eu vou pegar uma única peça responsável pela produção inicial da temporada e que sem ela, as coisas desmoronam. Essa peça tem 1.6% de gordura corporal.

DK Metcalf

Metcalf é uma aberração da natureza que tem o tamanho de um cavalo e corre 4,3 no 40 yard dash. Mesmo assim, foi esnobado no draft e só foi pego na última pick da segunda rodada pelo Seahawks.

O motivo da queda foi que Metcalf, apesar de rápido e forte, é que ele não tem boa agilidade na quebra das rotas, o que seu 3-cone Drill também demonstra.

Um dos maiores advogadores de Metcalf foi o analista Brett Kollman. Pra ele foi um absurdo Metcalf cair tanto no draft apenas por causa disso e que, mesmo tendo uma árvore de rotas limitada, ele poderia ser muito produtivo.

Kollman estava certo afinal. E com uma ano de experiência na bagagem, Schotteheimer começou a usar do seu potencial. Assim que o Seahawks via a defesa com apenas 1 safety no fundo (lembra da lógica de Carrol?), Metcalf corria alguma variação de rota Fade e apostava corrida com o CB. Se o CB estava em Press, meu amigo, era tchau tchau.

 

Se o CB estivesse em Off, viria um double move e mais uma rota longa. Aqui ele corre um Sluggo (Slant and Go) pra mais um avanço grande.

 

Até que as defesas começaram a perceber que o jogo do Seahawks era esse. Se tirasse isso, o ataque não tinha mais tanto repertório. Ter 2 ou 3 avanços longos desse tipo, muitas vezes com DK marcando touchdown, era o ganha pão do Seahawks.

Para o desgosto de Pete Carroll, os time começaram a jogar com 2 Safeties no fundo. E aqui podemos ver como isso anula a bola longa de Metcalf. No que parece um Cover 4 ou uma cobertura dupla em Metcalf, o CB pode focar em ter o leverage externo em relação a Metcalf. Metcalf força a saída para a lateral, mas nunca consegue separação do CB

Mesmo quando o time se alinhava com 1 Safety, os CBs já estavam mais prevenidos contra uma rota longa de Metcalf, se alinhando em Off e não caindo em qualquer double move. E tirando isso, pouca coisa sobra pra Metcalf. Afinal de contas, é basicamente isso que ele consegue fazer: Rotas Fade, Slant, Curl, Comeback.

Perceba que entre as semanas 1 e 4, Metcalf teve praticamente os mesmo número de targets e recepções mas a média por recepção despencou.

A mamata acabou. O que o Seahawks poderia fazer pra compensar? Correr com a bola? Foi o que tentaram. Mas o Seahawks não consegue montar um bom jogo corrido desde que Marshall Lynch saiu do time.

Wilson então começou a forçar mais bolas e sofrer mais interceptações.No final das contas não tinha muito o que fazer. As primeiras semanas apenas mascararam o real problema: O time do Seahawks não é bem construído.

 

Packers e Bills fizeram o que o Seahawks tentou – do jeito certo e de maneiras diferentes

Afinal de contas, balancear o ataque ou só passar a bola? Quem poderia resolver essa questão? Analytics?

Que tal isso: você que escolhe. Apenas trabalhe. Apenas arme time, um esquema, tenha uma filosofia e confie nela.

Você quer passar a bola quase todas as jogadas? Faça como o Bills. Ele apostaram alto num moleque que sofria bullying pelos comentaristas de internet e o desenvolveram por 3 anos. Montaram uma boa linha ofensiva e investiram em um WR de ponta. O resulta tá aí. Fruto de planejamento.

Seu QB de elite passa por apuros, como o Russel Wilson? Você quer balancear as coisas? Faça como o Packers. Aaron Rodgers melhorou sua produção e pode ser o MVP com a ajuda de um esquema de corrida complexamente esquematizado que tira a pressão dos seus ombros. Foi o que o Seahawks tentou fazer no meio da temporada e obviamente não conseguiu por falta de planejamento.

É por isso que quando eu escuto Pete Carroll dizendo que quer correr mais com a bola depois de começar a temporada apenas passando eu rolo os olhos. Afinal de contas, o que você quer fazer? O problema não é correr ou passar, o problema é falta de identidade. É definir o que você quer e trabalhar pra isso. Por anos.

Esse problema se reflete na mídia, que muitas vezes dá murros na parede e fica gritando pras nuvens. Por que não se fala mais na construção do time em vez de se um time tá em cima do eixo x e do y quer dizer que ele deveria passar ou correr com a bola? Isso é perda de tempo. Não consigo usar as mídias sociais porque o que não falta é gente arranjando treta sobre quem é o melhor Long Snaper da NFL ou esperneando porque um time correu em uma 2nd and long e isso supostamente é ruim. Eu quero saber é do time do Seahawks. Quem é o TE do Seahawks? Como tá a OL? Que esquemas eles estão usando?

Eu vi torcedor um Seahawks dizendo pra trocar o Russel Wilson depois da eliminação nos playoffs. Isso me faz questionar: Isso aqui é a realidade mesmo? Estamos numa simulação? O cara torce pra um time e quer mandar embora a pessoa que vem carregando o time NAS COSTAS por anos?

As vezes eu me questiono se eu gosto de conversar sobre FA. Muitas vezes a resposta é não. Que apreciar o jogo sempre seja o suficiente pra mim.