A volta às origens e reinvenção do Quarterback

Desde que o FA ficou mundialmente popular, o Quarterback sempre foi conhecido como o jogador mais importante do ataque. O grande responsável pelo recurso do passe pra frente e o cérebro do time.

Nos primórdios do jogo, no entanto, Quarterback era apenas o nome designado ao jogador que recebia o snap quando ele era feito Under Center. Quando era um snap em shotgun, o QB costumava se movimentar pela OL antes do snap para bloquear em algum lado, não muito diferente do que TEs e FBs fazem hoje em dia. Antigamente o responsável pelo (raro) passe pra frente podia ser qualquer jogador do backfield. Na formação Single Wing, o Tailback, além de corredor, era responsável pelo passe.

Blocking back, também conhecido como Quarterback, não passava a bola

Mas com a evolução das formações ofensivas, o Quarterback se consolidou como o passador, até mudanças de regras e consolidação das técnicas de passe fazerem a fama da posição.Isso foi ótimo. O jogo ficou mais excitante e popular. Criou-se o arquétipo do pocket QB que lê a defesa e faz passes certeiros. Mas também nos fez esquecer que QB não precisa fazer só isso.

Por anos a chamada Pro Style Offense da NFL fez o QB ser nada mais que um passador. Hoje, um QB que é puramente de pocket é exceção no draft. Essa mudança veio com o crescimento do Spread no college que posteriormente passou para a NFL. Os ataques ficaram múltiplos, com QBs que são ameaças tão aéreas quanto terrestres, trazendo problemas pras defesas.

Estamos vendo esse dinamismo toda a semana na atual temporada. E isso está virando o “novo normal”.

 

Quem é o Quarterback da formação?

É fato sabido que um dos motivos que levou a popularização dos ataques Spread e principalmente do Read Option é o fato do QB se tornar uma ameaça terrestre. Com o QB podendo correr, adicionado ao fator leitura, o ataque ganha a chamada superioridade numérica contra o front de defesa e a corrida, seja ela com o QB ou com o RB, tem mais chance de ser bem sucedida. Esse é um dos pilares da nova geração de ataques baseados em formação shotgun, com corridas options e RPOs

Colocar o QB como corredor e ler um defensor faz o ataque ter superioridade numérica

Esse tipo de ataque pode funcionar até mesmo com um QB mais “pocket”. Mas com um QB dinâmico, as possibilidades de se confundir uma defesa aumentam.

Veja a formação que o Cardinals se alinha aqui. Kyler Murray não se alinha atrás do Center. Como Kyle é um exímio corredor, a defesa não sabe o que esperar. Ela tem que se manter honesta a ameaça de Kyle pegar o snap e correr para direita, ou pegar o snap e fazer um sprint pass, ou pegar o snap e fazer um speed option com o WR C. Kirk alinhado como RB. São tantas coisas que podem acontecer, tantos “eye candies” pra defesa, que no fim sempre vai ter espaço e bloqueadores suficientes pra corrida.

Acontece exatamente isso, com Murray fingindo pegar o snap e em aparente posição de fazer um Speed Option com Chrstian Kirk e o RB Kenyan Drake conquistando algumas jardas em corrida no lado oposto.

Alguns times, como o Saints e o Eagles, usam um Quarterback desse estilo para entrar em algumas situações. O Saints tem Taysom Hill, que não basta ser passador, também corre e recebe bem. Por isso, o Saints pode ir antes do snap com Hill e Drew Brees e a defesa não tem como prever quem vai se alinhar para receber o snap, pois Hill pode alinhar até mesmo com um TE ou WR e correr uma rota. Ele teve uma recepção para 1st down contra os Buccaneers em uma rota Post, como se fosse um TE normal.

Nessa jogada, Brees se alinha como WR e Hill pega o snap em shotgun com uma formação Empty. As rotas são verticais e a cobertura é individual, o que é um prato cheio para um QB que sabe correr. Hill corre e conquista o 1st down.

Nesse snap, o Eagles faz a mesma coisa, alinhando Hurts atrás do Center e Wentz como WR. Hurts então joga faz um pass lateral para Wentz semelhante a um screen pass e corre para esperar o passe para o outro lado. A secundária já está distante, ocupada pelas rotas longas, enquanto Hurts recebe a bola com bastante espaço a frente. Apesar disso, Pernell McPhee faz uma boa jogada e impede que Hurts escape para o lado com mais espaço. Mas seria uma jogada explosiva não fosse pela boa jogada do LB.

Menu completo no jogo terrestre

Quando eu comecei a acompanhar a NFL, meu ídolo era o Michael Vick. Eu lembro de ter participado de algumas discussões no Orkut sobre o Vick supostamente só saber correr e não saber lançar a bola. Eu nunca concordava com essa narrativa, e foi necessário Vick chegar em um time com um bom técnico e um bom supporting cast pra os orkuteiros se calarem.

Mas o engraçado é que Vick foi excelente como um QB corredor em uma época que a princípio não favorecia esse tipo de QB. Quase 90% das corridas de Vick partiam de um scramble em uma jogada de passe. Ou seja, Vick escolhia quase que espontaneamente se ia correr ou passar. Muito diferente do ataque do Ravens de hoje com Lamar Jackson, por exemplo, onde já se sabe que o QB vai correr em esquemas tradicionais.

Falando em esquemas tradicionais, não há esquemas de corrida que um QB não possa executar da mesma forma que um RB. Na verdade, pra ser justo, é muito difícil um QB executar esquemas de bloqueio por zona por não ter o treinamento de RB necessário pra fazer as leituras do esquema. Mas esquemas de Gap podem ser até mais potentes quando executados por um QB.

E o menu de corridas para QB na NFL esse ano é completo. Veja o Bills executando uma corrida Iso Lead com 2 lead blocks. Agora, note que a possibilidade do Bills conseguir usar 2 bloqueadores nessa corrida parte do fato de quem corre é o QB Josh Allen. Se Allen fosse executar uma Iso tradicional e fizesse o handoff por RB, o QB seria um peso morto no resto da jogada, sendo apenas responsável pelo handoff e mais nada.

O Ravens investe todo o potencial do seu ataque na habilidade de Lamar Jackson correr com a bola. E é o time que mais usa esquemas de gap tradicionais para o QB correr, junto com o advento do Option e dos motions.

Nessa jogada, a OL faz um bloqueio tradicional de Power, com o Guard do backside fazendo pull pro frontside. No mesh point, o Inverted Veer (Quarterback preparado pra correr entre os Tackles e RB a correr pela lateral do campo) faz com que os defensores do lado direito tenham que respeitar o handoff pro RB Gus Edwards, o que abre espaço para a infiltração de Lamar Jackson.

 

Outros esquemas de gap como o Sweep e o Crack Toss colocam o corredor em espaço nos flancos do campo. Esse tipo de corrida também favorece a um QB corredor, que geralmente é alguém mais ágil e rápido do que forte.

Na próxima jogada, o Cardinals usa a corrida Sweep na Goal Line, colocando Kyle Murray para correr e o RB como Lead Blocker. A jogada não dá certo porque o RG não consegue acompanhar a velocidade do LB em seu pull para bloqueá-lo, e então ele consegue o tackle em Murray.

 

Um dos esquemas mais eficientes da temporada atual é a corrida de Read Option de Daniel Jones. Não bastasse a corrida épica que só foi detida pelo tombo do própio QB, na última semana alguns detalhes adicionados fizeram o esquema ser ainda mais eficiente.

A corrida parecia ser um Split Zone tradicional. O RB iria pegar o handoff e o TE iria bloquear o DE no lado oposto (o que caracteriza o esquema Split Zone do Inside Zone). Acontece que Daniel Jones puxa a bola e o TE não bloqueia o DE como o esperado. Dessa forma o DE foi “driblado” sem nem mesmo afetar a jogada, e o TE está em posição para bloquear o CB e o WR bloqueia o LB em um Crack Block. Dessa vez Daniel Jones acelera e não tropeça.

A jogada do TD de Daniel Jones

 

 

 

 

 

Estaria o QB de pocket com os dias contados? Eu diria que não. Se você for um passador extraordinário,mas correr 40 yard dash em 6 segundos, você vai conseguir beneficiar seu time com passes de dropbacks da mesma forma. Mas esses passadores puros estão cada vez mais raros. Muito pelo fato de que os melhores atletas estão sendo colocados como QB desde cedo e aprendendo cedo as técnicas de passe e a parte mental da posição. QB é a posição mais importante do esporte. Cada vez mais.