Moneyball, Pro Football Focus e o determinismo estatístico

Paul DePodesta entrou no Front Office do Cleveland Browns com a promessa de trazer a “revolução Moneyball” da MLB para a NFL.

Para quem não acompanha baseball e nunca viu o famoso filme inspirado nessa história, Paul DePodesta ficou famoso por fazer parte do Front Office do Oakland A’s nos anos 2000.A grande façanha realizada por eles foi a de conseguir resultados inesperados para uma franquia relativamente pobre de Oakland com um elenco não tão caro como o do rico New York Yankees, por exemplo.

Os meios para se conseguir isso foram basear o lineup da equipe nas estatísticas de cada jogador.Contratações e a estratégia de draft também foram baseados em estatísticas.

Uma das primeiras cenas do filme exemplifica bem o dilema sofrido pelo Baseball da época.Um grupo de cartolas do Oakland A’s discutem um jogador Free Agent, e entre a pauta sobre esse jogador está se a namorada dele é bonita ou não.”Namorada feia significa que não tem confiança” diz um deles.

A narrativa do resto do filme acaba justamente por contrapor esse pensamento de julgar a habilidade de um jogador por características subjetivas, como se a namorada de alguém é “pelo menos nota 6”.Baseando-se em estatísticas como Corridas por rebatida, o Oakland A’s surpreendeu a MLB naquela década com um time que chegou mais longe do que deveria.

Mas apesar de reconhecer o trabalho de DePodesta em fazer uma verdadeira revolução na MLB, eu tenho que confessar:

 

Eu não gostei de Moneyball

Paul DePodesta sendo interpretado no filme Moneyball

Nada contra quem gostou.Eu que não sou exatamente um cinéfilo.Honestamente, eu não lembro a última vez que eu fui ao cinema.Então talvez eu não seja a melhor pessoa pra julgar se um filme é bom ou ruim.

Mas a minha opinião sobre estatísticas, pelo menos no âmbito do futebol americano, é essa: São secundárias.Estatísticas servem para meramente confirmar o que já dá pra saber sem elas.

O Futebol Americano tem semelhanças e diferenças com o Baseball.Uma das semelhanças é que ambos são esportes de explosão.Os jogadores dão tudo que tem por no máximo 10 segundos em cada jogada.

Mas a diferença, a que faz com que estatísticas sejam dramaticamente mais importantes em um esporte do que no outro, está nas mecânicas do esporte.

No Baseball, 90% das mecânicas se baseiam no duelo entre arremessador e batedor.Os outro 10% só acontecem em caso de rebatida válida.

Por isso que Moneyball foi uma grande revolução no Baseball.DePodesta descobriu que no final das contas o único objetivo é anotar corridas.E a única maneira de fazer isso é rebatendo o arremesso.Então o Oakland A’s jogou muita das análises subjetivas fora e tornou o que era subjetivo objetivo: Entra no time quem rebate e anota corridas.Ponto final.

O problema é que esse reducionismo nunca vai se aplicar ao Futebol Americano.Por que?

Porque no FA estatísticas dependem do plano de jogo.Elas não funcionam isoladamente.

O que eu quero dizer com isso é que o principal influenciador nas estatísticas de um determinado jogo não são, por exemplo, os própios jogadores de ataque.É o plano de jogo feito pelo coordenador de defesa.

Se todos os coordenadores de uma liga decidirem arbitrariamente colocar cobertura tripla num determinado recebedor de um time em todos os jogos, esse recebedor vai ter estatísticas pífias.Mas… e aí? o técnico vai colocar esse recebedor no banco por causa disso?

 

PFF: Útil para torcedores, cartolas e jogadores – Não para técnicos

Pro Football Focus não é baseado em estatísticas, mas em notas.Eles basicamente dão nota pra atuação de cada jogador em cada jogada, e depois fazem uma média pra dar a nota final da atuação do jogador no jogo.

Mas o que eles tentam fazer é praticamente que o Front Office do Oakland A’s fez: Tirar a subjetividade do caminho e resumir a atuação de um jogador em um valor numérico objetivo.

O PFF ficou especialmente popular entre os torcedores, que costumam usar as notas do PFF em discussões sobre quem o time deve colocar como starter ou sobre qual jogador é melhor.

É bem verdade que o PFF também tem contratos com Front Offices da NFL, que podem usar suas análises para tomar decisões relacionadas ao Roster.

Tamanha fama fez com que o PFF fizesse algumas declarações bem… digamos… bold (ousadas).

Uma dessas declarações foi feita no final da temporada de 2015:

Sim, eles simplesmente declararam que o jornalista Peter King – e consequentemente os 90% dos jornalistas e torcedores que achavam que Cam Newton merecia ser MVP – estavam errados com base em suas análises “não subjetivas”.

Essa tentativa de criação de um “determinismo estatístico” de certa forma contraria o critério que o prêmio de jogador mais valioso geralmente leva em conta.

É aquela velha história: O melhor nas estatísticas geralmente leva o prêmio de melhor jogador de ataque ou defesa, enquanto o jogador mais VALIOSO é simplesmente o… jogador mais valioso?

O que os caras do PFF não entenderam é que o critério para o prêmio de MVP sempre vai ter que ser definido com um olhar relativo para as coisas.Qual time o jogador joga? Quem são seus companheiros? Quais dificuldades o jogador teve que enfrentar durante a temporada?

Sim, a subjetividade é importante.Não tem como fugir dela.

 

 O tipo de FA perfeito para os amantes de estatística

Para que exista a tão sonhada revolução Moneyball no futebol americano, mudanças nas regras precisariam ser feitas.

Imaginei um jogo onde as estatísticas seriam tão importantes como no Baseball.

No Basefootball, são 5 jogadores contra 5.Não existem jogadas de corrida, apenas de passe.Não existe snap, o QB sempre terá 5 segundos para fazer o passe e caso passe disso é falta.

Os recebedores só podem correr 4 rotas: Fade, Go, Seam e Slant. Caso corra uma rota diferente disso é falta.Assim como na natação, onde se um nadador não nadar nado peito numa prova de peito é desclassificado, se o recebedor correr uma rota diferente dessas 4 é falta.

Pronto.Esse tipo de FA tem mecânicas previsíveis o suficiente para que as estatísticas sejam bastante importantes.

 

Conclusão

O Browns de Paul DePodesta ainda não viu suas estratégias revolucionárias de draft dando resultado.E podem continuar sem ver se continuarem trocando 1 escolha de primeira rodada por 10 escolhas de quinta rodada.

Não, não prevejo um filme de Hollywood chamado “Moneyball 2: ressucitando Cleveland”